Recomendação

QUAL A MELHOR ABORDAGEM NO AFOGAMENTO COM PARADA RESPIRATÓRIA e PCR?
ABC X CAB X SÓ-COMPRESSÃO

Aprovado pela Diretoria da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático – 2012-16
Autor principal: Dr David Szpilman – Diretor Médico

Esta recomendação é o consenso extraído de literatura cientifica por especialistas na área de salvamento aquático e diretores da SOBRASA e será atualizado a cada novo aparecimento de informações relevantes ao assunto. Mantenha-se atualizado acessando www.SOBRASA.org.

Abaixo seguem as recomendações da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático – SOBRASA, de forma resumida inicialmente e em seguida as explicações cientificas por trás destas recomendações em forma de perguntas e respostas mais detalhadas. Você poderá encontrar muito mais informações em nosso MANUAL DE EMERGENCIAS AQUATICAS gratuito ao associado SOBRASA.

EM CASO DE AFOGAMENTO A MELHOR TÉCNICA RECOMENDADA DE RESSUSCITAÇÃO É:
Dentro da água
Somente guarda-vidas e leigos com treinamento em ressuscitação dentro da água
1. Se existe parada respiratória e ainda não ocorreu a cardíaca, realizar somente 5 a 10 ventilações e resgatar a área seca.
2. Se existe PCR (parada cárdio-respiratória) completa, não ventilar dentro da água e resgatar direto a área seca.
Fora da água
3. Se houver somente parada respiratória
3.1 – Leigo treinado em curso de RCP (ressuscitação cárdio-pulmonar) e profissionais de saúde (inclui guarda-vidas) = realizar 5 a 10 ventilações até retorno da ventilação espontânea
4. Em PCR (Parada Cárdio-Respiratória)
4.1 – Leigo com nenhuma ou rara experiência em RCP = Só-Compressão (SC)
4.2 – Leigo treinado em curso de RCP e profissionais de saúde (inclui guarda-vidas) = seqüência ABC

Desde 2010, com a liberação das novas recomendações em ressuscitação pela “International Liaison Committee on Resuscitation” (ILCOR), órgão que congrega as principais organizações ligadas a ressuscitação no mundo, tem havido muita discussão e má compreensão sobre o que deve ser feito em casos de afogamento onde existe a parada respiratória isolada (Grau 5) ou a parada cárdio-pulmonar(PCR) (grau 6).

Nosso objetivo com esta recomendação é esclarecer ao público em geral e aos profissionais de saúde quais as melhores formas de abordagem e procedimento a ser adotado visando salvar a vida, considerando diferentes situações de PCR, mas principalmente ressaltando as particularidades nos casos de afogamento.

Este documento pretende explicar e abordar diversas dúvidas que tem sido levantada principalmente entre profissionais guarda-vidas que lidam com este tipo de situação crítica em seu dia-a-dia.
O texto abaixo é uma tradução da referencia da AHA 2010 (Circulation 2010;122:Suppl 3:S847-S848), para casos de afogamento, nos segmentos mais pertinentes a estas recomendações: “Com as novas recomendações da American Heart Association 2010 para RCP, agora começamos com a seqüência CAB. No entanto os “guidelines” recomendam a individualização da seqüência baseada na etiologia da PCR (causa). A RCP em casos de afogamento deverá continuar utilizando o tradicional ABC, pela natureza de sua PCR ser hipóxica”. “A mais importante intervenção no tratamento do afogado é o imediato fornecimento de ventilação(se isto não foi feito ainda dentro da água)”. “Imediatamente após a retirada da vitima inconsciente da água, o socorrista deverá abrir as vias aéreas (A) e checar por respiração (B) e se não houver respiração, prover 2 ventilações de forma a elevar o tórax”. O Conselho Europeu de Ressuscitação (ERC) (Resuscitation 2010;81:1400-33), descreve exatamente a mesma conduta, exceto quanto as 2 primeiras insuflações logo após a retirada da água no qual a recomendação é de 5 insuflações iniciais.

Veja abaixo as diversas perguntas e respostas. Se não contemplar suas duvidas poste ao final sua pergunta e nos a incluiremos nesta recomendação, para que todos tenham acesso a informação.

Baixe a recomendação completa em PDF

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BIBLIOGRAFIA
1.David Szpilman, Joost Bierens, Anthony Handley, & James Orlowski. Drowning: Current Concepts. N Engl J Med 2012;366:2102-10
2.International Life Saving Federation Medical Committee. Clarification statement on cardiopulmonary resuscitation for drowning. Leuven, Belgium: International Life Saving Federation, April 3, 2008, on-line
3.Soar J, Perkins GD, Abbasc G, et al. European Resuscitation Council Guidelines for Resuscitation 2010. Section 8. Cardiac arrest in special circumstances: electrolyte abnormalities, poisoning, drowning, accidental hypothermia, hyperthermia, asthma, anaphylaxis, cardiac surgery, trauma, pregnancy, electrocution. Resuscitation 2010;81:1400-33.
4.Vanden Hoek TL, Morrison LJ, Shuster M, et al et al. Part 12: cardiac arrest in special situations: drowning: 2010 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation 2010;122:Suppl 3:S847-S848.
5.Szpilman D, Soares M. In-water resuscitation – is it worthwhile? Resuscitation 2004;63:25-31.
6.Szpilman D. Near-drowning and drowning classification: a proposal to stratify mortality based on the analysis of 1831 cases. Chest 1997;112:660-5.

Resposta de 0

  1. Não existe diferenças no tratamento para diferentes tipos de água aspirada.
    O processo de afogamento todo, da submersão ou imersão até uma parada cardíaca, geralmente ocorre de segundos a alguns minutos, mas em situações raras, tais como o afogamento em água gelada, este processo pode durar até uma hora. Se a pessoa é resgatada viva, o quadro clínico é determinado predominantemente pela quantidade de água que foi aspirada e os seus efeitos. A água nos alvéolos provoca a inativação do surfactante e sua lavagem do alvéolo. A aspiração de água salgada e água doce causam graus similares de lesão, embora com diferenças osmóticas. Em ambos os tipos de afogamento (água salgada e água doce) o efeito osmótico na membrana alvéolo-capilar rompe em parte a sua integridade, aumenta a sua permeabilidade e por conseqüência a sua função. O quadro clínico causado por esta alteração na membrana alveolar-capilar se traduz em edema pulmonar, que diminui principalmente a troca de oxigênio. O efeito combinado de fluidos nos pulmões com a perda de surfactante resulta em redução da complacência pulmonar, aumento da área de shuntagem arterial, atelectasias e broncoespasmo. A diferença do tipo de água em ocorre o afogamento só se tornar importante sob o aspecto de epidemiológico de forma a planejar a melhor estratégia de PREVENÇÃO.

    1. Para casos de afogamento usualmente não há necessidade urgente de oxigênio extra, pois o ar ambiente fornece o suficiente a RCP, ou 21%, ou ainda quando o boca-a-boca é utilizado, em torno de 17%. No entanto quanto antes puder aumentar a fração inspirada de oxigênio em sua ventilação artificial melhor será o prognostico

  2. Obrigado Doutor David Szpilman esta compartilhado, muito esclarecedora e importantes as dicas .

    Agora uma pergunta sobre o Dea .

    Não havendo a fibrilação temos que efetuar RCP até que aja um estimulo ???? E o aparelho efetue a leitura, identificando sinais elétricos, e assim possa orientar o socorrista a afastar-se para efetuar a descarga elétrica para reanimação estimulando retorno dos batimentos ????

    Não utilizamos ou temos Dea´s disponíveis nos grupamentos para os salva-vidas de salvador nas praias, para o atendimento , sabendo-se que é um suporte básico.

    Não é de extrema importância o grupamento o possuir e treinar seu grupamento mesmo quando a maioria das nossas ocorrências seja afogamentos primários , mais temos outras praias , mesmo que a minoria aconteça afogamentos secundários, ou em casos de atendimentos de pessoas de idade na orla e nas barracas de praias em pratica de diversas atividades e assim expostas ao risco de PCR por FV, onde seu uso pode determinar o sucesso da ressuscitação????

    Obrigado em compartilhar conhecimento com todos interessados em salvar vidas !!!

    1. O DEA só servirá ao guarda-vidas em casos de PCR por causa cardíaca. Usualmente as ambulâncias do SAMU possuem o aparelho para uso.
      Embora importante no dia-a-dia, o gestor deverá pesar custo x benefício na hora de adquirir pois alem do custo individual de cada aparelho na casa dos R$ 4.000,00, existe a necessidade de treinamento, manutenção e quantidade deles ao longo não só da praia como em outros locais.
      Eu diria que é importante, mas não é o mais importante da lista. Ao final deve ser uma decisão do gestor, pois estamos muito, mas muito mesmo, longe de termos dinheiro suficiente para todos os equipamentos necessários as atividades de guarda-vidas e necessitamso dar prioridades no investimento, e isto não só no Brasil, mas nos paizes ricos acontece a mesma coisa.

  3. PCR por causa cardíaca deverá começar o RCP com compressões(30)/insuflações(2) e em casos de PCR por afogamento, insuflações(2)/compressões(30) em 5 ciclos com um único socorrista?

  4. ola doutor !
    li um artigo que dizia que uma célula semi lesionada quando recebe de forma súbita oxigênio; esse mesmo oxingenio mata essa mesma célula. gostaria de saber em relação as ventilações e ao próprio oxigênio a 100 % e quando acontece essa lesão celular por conta da adminstraçao de oxigênio?
    desde já agradeço doutor

    1. Quando um tecido sofre falta de oxigênio, ao recuperar-se ele libera radicais livres e substancias inflamatórias em resposta a esta lesão que embora de forma defensiva, pode prejudicar. No entanto não é o oxigênio que provoca isto mas sua falta, devendo portanto ser reposto assim que possível. O oxigeno a 100% por curtos períodos, por exemplo em PCR, não é prejudicial. Existem muitos estudos mostrando que não devemos dar mais oxigênio do que o necessário, no entanto no ambiente pré-hospitalar não há como exatamente dosar esta quantidade e pesando os malefícios sobre os benefícios, ainda sim ocorre mais efeitos positivos.

    1. Em PCR, é comum ocorrer fraturas de costelas, o esterno é menos comum, pp/ em pessoas mais idosas onde o gradil costal é menos flexível, e portanto mais propenso a sofrer fraturas. Lembre-se que seu paciente esta em PCR, ou seja em morte biológica, se vc não fizer a compressão de nada adiantará evitar fraturas.

    1. A espuma na boca é causada pela combinação de ar + proteína alveolar (surfactante) + água, formada nas vias aéreas no esforço de respirar.
      Observe por exemplo, a espuma que se forma no mar quando existe a maior presença de coliformes fecais na água (esgoto), este é o mesmo principio. Ou seja, o quebrar das ondas sobre a proteína (coliformes fecais) com o elemento ar formam aquelas ondas com mais espuma do que o normal.

  5. Saudações a todos, meu nome é Anderson Lima e sou cadete do Corpo de Bombeiros Militar do estado da Paraíba. Muito boas as explanações, gostei muito, vou passar a visitar o site da SOBRASA mais frequentemente. Agora Dr Szpilman, tenho uma dúvida que gostaria de sanar de uma vez por todas: nas explicações acima, vi que a relação ventilação / compressão pode ser de 2 para 15 ao invés de 2 para 30. Quando é que isso realmente poderá ser utilizado??? E quando for, posso fazer 5 ventilações no primeiro ciclo??? Obrigado!

  6. Dr. Davi Szpilman, excelente publicação!!! Muito esclarecedora em relação aos aspectos da PCR e reanimação no afogamento. Fiquei em dúvida apenas em relação à manobra de Sellick. Ela não foi abolida nas últimas diretrizes do ILCOR? Deverá então ser aplicada por outra pessoa enquanto um socorrista efetua as ventilações, com o objetivo de evitar o vômito? Grande abraço.

  7. Boa noite, eu queria saber quantos ciclos de 2×15 eu faço para avaliar a circulação da vítima. em 2×30 são 5 ciclos. No caso de 2×15 seriam 10 ciclos?
    E no caso da reanimação ventilatória, se a vítima tiver no decorrer desta, ao iniciar a RCP há a necessidade de fazer mais duas para iniciar a RCP ou eu posso ja iniciar a RCP tendo em vista que ja houve um ciclo de ventilação?
    Obrigado!

  8. Boa tarde Doutor, eu queria saber se é pertinente fazer a escala de coma glasgow para vítimas de afogamento. Outra dúvida que eu tenho é no deslocamento de uma vítima na prancha rígida com parada cardíaca sendo deslocada ha uma certa distancia em que a ambulancia está ha cinco minutos do local.Como seria? A Equipe pararia em nas compressões ( prancha ao solo) e deslocaria na hora das 2 insuflações e ao fim do 5 ciclos teria mais tempo para correr?
    Obrigado doutor!

    1. Sim, é possível, especialmente em casos de parada de origem respiratória onde a respiração para primeiro e em seguida, apos segundos a poucos minutos o coração.
      Neste caso, após avaliar A e não houver respiração, inicie a ventilação e em seguida se n houver a resposta inicie a compressão cardíaca.

  9. Boa noite Dr. Szpilman, obrigado por compartilhar um pouco de conhecimento com todos nós.
    Quais seriam os procedimentos, em caso de afogamento, de RCP para gestantes? O senhor indicaria alguma bibliografia para consulta?
    Muito Obrigado!
    Sd BM VITOR

    1. Ola Vitor
      Os procedimentos são exatamente os mesmos.
      Na gestante, durante a RCP, a recomendação da AHA é de colocar um coxim por baixo do lado direito, para que o utero se desvie ligeiramente a esquerda e alivie o retorno venoso da veia cava inferior e assim ao coração.
      Eu particularmente já fiz varias ressucitações em gestantes mas nunca fiz uma ressuscitação em gestante afogada e nunca vi uma se afogando.
      Szpilman

  10. Olá boa noite, em paciente afogado em PCR ou apenas com ausência de respiração, devemos primeiro realizar 5 compressões diafragmáticas para retirada da água e posteriormente iniciar a RCP – CAB? ou deve-se no caso de uma PCR iniciar RCP mesmo com pulmões e estômago cheios de água? Obrigado!

  11. Boa Tarde.

    Como deve ser a massagem cardio respiratória, se a vítima estiver dentro de um bote salva vidas a deriva, onde não se tem uma superfície rígida, pois já ouvi num curso de HUEAT que a mesma deveria ser aplicada com o pé. Isto procede ?

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